De um lado, a escandalosa serenidade de um peladeiro budista: Hugo. Do outro, os pitís explosivos de uma matilha de um homem só: Artur.
No fundo, no fundo, todo homem é um animal. Canis lupus familiaris ou Columba livia, não importa.
Findada a frescuragem, vamos à resenha. A pelada foi pegada como há muito não se via. Longe de mim dizer que os pelejeiros faltosos têm a ver com o elevado nível técnico e viril de ontem, pode ser apenas uma coincidência. Foram 15 peleiros, o que proporcionou o sempre aprazível número de 3 times exatos, o que torna a troca de times muito mais ágil. Os planteis:
Time 1: Igor, Pedrão; Dudu; Cardinot e Barba
Time 2: Pomba, Prestinho; Iretônio; Paulo e Leo Vovô
Time 3: Romero, Melancia; Curupira; Toré, Cão
Na maior parte da pelada, o time 2 levou a melhor, mais por incompetência dos adversários do que por outra coisa, visto que foram acertadas uma média de 5 bolas na sua trave por jogo, tirando a atuação inspiradíssima do goleiro Rodrigo.
A bola nova serviu de desculpa até a metade da pelada, quando ela parou de agir como se estivesse sendo chutada na altitude de La Paz. Depois disso, as coisas se estabilizaram e até Cardinot, mais um pitizento da noite, conseguiu fazer um gol, depois de dar um escândalo (desnecessário) pra cima de Dudu no banco de reservas.
O que se seguiu a partir do 42º minuto nem o mais inspirado pelejeiro comediante esperava. Depois de uma escalada de violência no jogo, Pomba interceptou, maladrosamente, uma cobrança de falta no meio-campo de Paulo. Como já tinha amarelo, Boca Cesar de Oliveira ergueu-lhe o cartão de cor azulada.
Meu velho, a cena foi bizarra. Depois da gritaria de praxe, Pomba percebeu que havia passado dos limites na reclamação e resolveu meditar.

No meio do campo. Tal qual Dhalsim ao vencer uma luta. Ficou parado como uma rocha.

Nada o tirava dali, tal qual aquele chinês muito doido que resolveu parar os tanques na Praça da Paz Celestial em 89. Pelo menos ele estava na faixa de pedestre. Pomba não estava, então o pessoal teve que usar a força para tirá-lo do campo:
Tô brincando, ele saiu por livre e espontânea vontade. Foi um protesto pacífico.
Depois disso, veio o melhor. O Cão, talvez indignado com a demonstração Zen de Pomba, resolveu se atracar com ele e foi expulso de campo. Começou a ficar vermelhinho, e começava a surgir uma fumacenta de irritação a la Mauricio de Sousa na sua cabeça.

Depois, num lance confuso, acusou um atacante do outro time de tentativa de homicídio por decapitação do goleiro Rodrigo, quando na verdade todo mundo cheirou a bola. Na seqüência, Curupira, que não tem nada a ver com isso, levou a bola na mão e deu pra Toré fazer o gol. Foi o suficiente. O canino doméstico avançou no juiz. Expulso, de novo. Na saída, bradou, no melhor estilo homem traído: "Com boca eu não jogo mais aqui. Ou ele ou eu, vocês escolhem!". O que é isso, um cachorro chifrudo? Vôte.

Ninguém entendeu muito por que ele resolveu colocar o próprio destino nas mãos dos coleguinhas, mas a gente fez uma votação no fim da pelada. Os 14 presentes decidiram, por unanimidade, que Boca fica. Chegamos à conclusão que a pelada iria morgar caso ele abandonasse o nosso apito, que tantas emoções desperta cada vez que é soprado.
O fato é que, além de corno, o Cão vai ficar liso. Pagou 140 reais numa bola que ninguém gostou e ninguém vai pagar. A não ser que ele contrarie o que disse ao sair e apareça lá mesmo com Boca apitando.
Atenciosamente,
Pedrão



















